A comunicação organizacional através dos tempos – Parte 6

No capítulo passado, vimos que a tardia industrialização brasileira significou o florescimento também posterior da comunicação organizacional no país. Mas quando as coisas começavam a tomar seu rumo, um obstáculo se impôs no caminho.

Após o êxito popular do governo JK, que culminou com a inauguração de Brasília, o país viveu momentos difíceis. O presidente eleito Jânio Quadros renunciou após menos de oito meses de mandato. Assumiu, então, o vice João Goulart, tido como adepto do socialismo, que não contava com o apoio das elites dominantes e de alguns setores das Forças Armadas. Jango sofreu diversas pressões de grupos conservadores da sociedade brasileira, que viam o seu affair com países como China e União Soviética com maus olhos.

Para diminuir os poderes do presidente, instituiu-se no Brasil um governo parlamentarista (1961-1962). Em janeiro de 1963, João Goulart convocou um plebiscito para retomar o presidencialismo, com cerca de 80% dos eleitores a favor. Os poucos meses que durariam seu governo foram repletos de conflitos políticos e tensões sociais, que terminaram com o golpe militar em 31 de março de 1964.

Inicialmente, os militares pregavam que sua passagem por Brasília seria apenas para retomar a ordem política e que muito em breve seriam convocadas novas eleições. Como o país vivia certa agitação social, em um primeiro momento parte da população apoiou a manobra. Mas com o passar dos meses, os generais foram se sucedendo no comando do país e foram responsáveis por um governo ditatorial que durou 21 anos.

Em janeiro de 1968, o decreto 62.119 determinou a criação da AERP, a Assessoria Especial de Relações Públicas da Presidência. Este órgão foi o responsável pela divulgação oficial das verdades do governo, apresentando de forma simpática o regime instalado, escondendo a rígida censura que tomava conta da nação. Encontramos em Margarida Kunsch (1997) uma citação do brasilianista Thomas Skidmore sobre o assunto:

“(…) Uma equipe de jornalistas, psicólogos e sociólogos decidia sobre os temas e o enfoque geral, depois contratava agências de propaganda para produzir documentários para TV e cinema, juntamente com matérias para os jornais. Certas frases de efeito davam bem a medida da filosofia que embasava a AERP. “Você constrói o Brasil”; “Ninguém segura este país!”; “Brasil, Conte Comigo!”(…). As mensagens eram razoavelmente sutis, com habilidoso uso de imagens sonorizadas e o emprego de frases extraídas da linguagem popular. **

O país vivia um clima de terror semelhante ao já produzido pela Ditadura Vargas nos anos 30, quando o então presidente instituiu em 1939 o DIP, Departamento de Imprensa e Propaganda. Este órgão, que controlava com vigor qualquer crítica ao governo, provocou o fechamento de diversos jornais, cerceou os movimentos artísticos e, claro, serviu para difundir os ideais do Estado Novo, com movimentos cívicos e ferramentas como o programa de rádio A Voz do Brasil que está no ar até hoje.

Sendo assim, durante o Governo Militar, o controle das atividades de relações públicas impactou de forma negativa as ações de comunicação empresarial, afetando diretamente o trabalho de comunicação interna nas organizações. Eram tempos de poucas perguntas, muito medo e aceitação muda de boa parte dos cidadãos que não tinham coragem ou não concordavam com a forma de reação ao regime, capitaneada pelas ações de guerrilha e por protestos de jovens universitários. Kunsch vai além em sua análise e aponta que:

“(…)a atividade era de interesse dos militares, a ponto de vários gerentes de relações públicas em grandes organizações na época terem sido militares. (…) a própria estratégia de relações públicas adotada a partir da gestão do General Médici virou um paradigma para todo serviço público e se reproduziu até mesmo em algumas grandes empresas.” ***

Apesar do milagre econômico apregoado pelos militares, a década de 70 foi marcada por um clima sombrio e sem grandes alterações no panorama da comunicação no interior das organizações.

Fontes

** Skidmore, Thomas apud Kunsch, Margarida. Relações Públicas e Modernidade: novos paradigmas na comunicação organizacional. São Paulo: Summus, 1997, p.26

*** Kunsch, Margarida. Relações Públicas e Modernidade: novos paradigmas na comunicação organizacional. São Paulo: Summus, 1997, p.27

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